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NEGRO DE TODAS AS CORES

Isaac Julien pode ser visto como cineasta ou como artista plástico. Ele fez uma escolha que permanece através de suas obras, a temática negra, muitas vezes gay e um certo olhar estrangeiro a tudo. Mas vejo Isaac Julien como um artista da composição. Seja trabalhando com cinema, seja em suas instalações, seja na forma como combina as disciplinas em sua arte, seu traço mais forte é o desenvolvimento da composição. O desenvolvimento que fez da linguagem tríptica é um capitulo na historia da gramática audiovisual.

Ele migrou do cinema documental para o mundo da arte em grande estilo. Fez a opção de existir na fronteira entre eles e encontrou ali o seu espaço. Suas imagens misturam cenários espetaculares espalhados pelo mundo, que vão desde o Pólo Norte ao Caribe, com ações simples algumas vezes muito artificiais. O que fascina ainda mais na obra de Isaac Julien é que ele faz do sublime exercício da forma, uma maneira de traduzir um conteúdo pessoal, autobiográfico e extremamente subjetivo. Mesmo com uma dose importante de artificialismo. Isso torna sua arte plena, multidimensional, inquietante e densa de relevância.

Entre os anos 60 e 70 o gênero hoje conhecido como Blaxploitation criou um espaço na industria de entretenimento americana para a imagem do negro recém saído da era de segregação racial. Blaxploitation era um gênero de filmes alternativos feitos por e para negros. Esse gênero teve grande sucesso comercial e apesar de criticado pelo mau exemplo que gerou para a juventude, ele foi fundamental para a criação da identidade para os negros de então, assim como para a sua integração dentro da industria como um todo posteriormente. Esses foram os anos de transição da cultura negra para o mainstream.

Isaac Julien viu esses filmes quando jovem. E reconhece a influência que eles tiveram sobre sua criatividade. Em 2002 fez um filme chamado BaadAsssss Cinema sobre a blaxploitation. Um fato interessante dessa história é que ela passa indiretamente pelo Brasil. O filme expoente máximo da era blaxploitation foi SHAFT, dirigido pelo aclamado fotografo negro norte americano Gordon Parks, um dos criadores da revista LIFE. Gordon Parks um artista múltiplo brilhante, nunca havia feito cinema. Até que em 1961 veio ao Rio de Janeiro e tocado com a historia de um menino que morava numa favela carioca, chamado Flavio da Silva, decidiu ali mesmo fazer seu primeiro filme. Depois desse filme ele documentou o movimento anti-segregacionista dos Estados Unidos liderado por Malcolm X e fez alguns dos mais brilhantes ensaios da historia do foto-jornalismo. Em 1971 fez Shaft, que seria um divisor de águas nessa historia e que marcaria a obra de Isaac Julien. A vida dá voltas por onde nem se imagina.

A escolha de Isaac para o Vivo Open Air de 2005 procura encontrar um ponto de convergência entre o cinema e as artes visuais. Nossa preocupação era de oferecer um equilíbrio entre o cinema de entretenimento e o território da experimentação audiovisual. Queríamos artistas que trabalhassem com cinema ou cineastas que fizessem arte. Em um mundo dominado por hegemonias é fundamental manter vivo o espaço da diferença, da experimentação e da diversidade. Isaac Julien reúne todas essas características aliadas ao fato de que é um artista cuja obra atingiu a maturidade essencial. Ele é um cineasta. Ele é um artista plástico. Isaac Julien é um caso raro de convergência entre o cinema e as artes visuais. Como cineasta assumiu uma obsessão: a de representar a cultura negra contemporânea em todos os seus matizes, em qualquer parte do mundo. Ele sentiu nitidamente que a gramática do cinema vivia sinais de esgotamento e buscou no território das artes visuais o espaço para trazer de volta o frescor da sua criação. Isaac Julien pinta o negro de todas as cores.

Marcello Dantas



BLACK MAN OF ALL COLOURS.



Isaac Julien may be seen as a filmmaker as well as a visual artist. He made a choice that is permanent throughout his works, the black theme, often gay and a certain look of someone who is a stranger to everything. Still, I see Isaac Julien as an artist of composition. Both in his films, or his installations, or the way to combine these different areas in his art, what most characterizes his work is the development of a composition. His development of the tryptic language is a fundamental chapter of audiovisual grammar.

He migrated from documental cinema to the art world with great style. He chose to exist at the border between them and there he found his territory. His images blend spectacular landscapes, from the North Pole to the Caribbean, with actions that are simple and often very superficial. What fascinates even more in Isaac Julien's work, is his use of the sublime exercise of form as a way to translate a private, autobiographical and extremely subjective content. Despite a significant amount of artificiality. This makes his art full, multidimensional, relentless and dense with relevance.

Between the 60s and the 70s, the genre that today we know as Blaxploitation, created an opening within the American entertainment industry, for the representation of the Blackman who had just left the era of racial segregation. Blaxploitation was an alternative film genre, which was shot by (and for) the black community. This genre had a strong commercial success and, despite gaining criticism for creating a bad example for the young generations, it was fundamental both for the creation of an identity for the black community, and for their later integration within the industry as a whole. These were the years of transition of the black culture towards the mainstream.

Isaac Julien saw these films when young. And he acknowledges the influence they had on his creativity. In 2002 he shot a movie called BaadAsssss Cinema about blaxploitation. What is interesting in this story is the fact that it indirectly deals with Brazil. The most significant film from the blaxploitation era was SHAFT, directed by the acclaimed Afro-American photographer Gordon Parks, one of the creators of the LIFE magazine. Gordon Parks a brilliant multiple artist, who had never done cinema before. Until 1961, when he came to Rio de Janeiro and, impressed by the story of Flavio da Silva, a young boy living in a slum, decided to shoot his first movie, on the spot. After this film, he documented the American anti-apartheid movement, lead by Malcolm X, and shot some of the most brilliant essays in the history of photojournalism. In 1971 he shot Shaft, which would be a defining moment of this story, influencing Isaac Julien's work. This is how unpredictably life goes around.

Isaac's choice for the 2005 Vivo Open Air is meant to find a converging point between cinema and visual arts. Our concern was to convey a balance between entertainment cinema and the territory of audiovisual experimentation. We wanted artists that were involved with cinema or filmmakers making art. In a world dominated by hegemonies, it is fundamental that we keep alive a space for difference, experimentation and diversity. Not only Isaac Julien has all these features, but also he is an artist whose work reached the fundamental maturity. He is a filmmaker. He is a visual artist. Isaac Julien is a rare case of convergence between cinema and visual arts. As a filmmaker he is aware of his obsession: portraying contemporary black culture in all its nuances, anywhere in the world. He clearly felt that the grammar of cinema was showing signs of exhaustion and searched, within the territory of visual arts, a space to bring back the freshness of his creation. Isaac Julien portrays the Blackman of all colours.

Marcello Dantas


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