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KUNST AUS AFRIKA Art of Africa

Berliner Morgenpost
A chave para entrar no castelo
Com a nova exposição africana, o Museu Etnológico se encaminha para o centro


Imagem do jornal "Berliner Morgenpost"
Essa "figura de poder" chama-se nkisi lumweno e é originária do Congo.
Fotografia: Staatliche Museum Berlin

Die Welt
[Die Welt, quarta-feira, 31 de agosto de 2005]
A chave de acesso ao castelo: A coleção africana de Berlim
Uma nova apresentação no Museu Etnológico




Cosima Lutz

"O forasteiro tem olhos grandes, mas não vê nada", afirma um provérbio da África Ocidental, de cuja verdade Berlim se conscientiza autocriticamente nos dias em curso. Durante décadas, a imagem do "primitivo" enformava o olhar sobre a "arte da África". Ocorre que esta é tão heterogênea, que não pode ser apreendida tão-somente nas conhecidas esculturas que foram recepcionadas na penúltima virada de século pela modernidade ocidental, cuja apropriação por assim dizer nobilitadora não obstante revelou ser uma falácia do colonialismo tardio, pois o que nos autoriza hoje a falar de "arte", para não abandonar de saída os nossos hábitos lingüísticos, quando estamos diante de fetiches xamanistas? Será que o Ocidente não enfia uma máscara de madeira politicamente correta sobre o olhar colonialista?

"Não existe uma arte africana", afirmam os idealizadores da exposição permanente "Arte da África", concebida segundo critérios novos e agora inaugurada no Museu Etnológico em Dahlem. Por outro lado, sempre teriam existido artistas que produziam num nível tecnicamente elevado e buscavam o reconhecimento social: "Faço obras de entalhe para que as pessoas digam: 'Quem fez isso?' e para que assim o meu nome se torne conhecido na região", eis as palavras de um artista da nação Dan dos anos 60 do século passado. Rompendo de tal forma as fronteiras entre a apreciação da arte e a etnologia, os Museus Estatais der Berlim exibem com clareza e nitidez até agora ignoradas os tesouros da sua Seção Africana, que é, com um total de 75000 objetos, uma das maiores coleções africanas do mundo.

O visitante literalmente salta na escuridão - e recebe ali uma chance de despedir-se do seu clichê do Continente Negro. Nos espaços escurecidos as 180 máscaras e esculturas, tronos e instrumentos musicais reluzem como que de dentro para fora. O fato de que, apesar disso, os objetos não estão envoltos em uma pesada aura de misticismo imperscrutável, deve ser creditado à concepção e seleção bem ponderada do curador Peter Junge, diretor da Seção Africana do Museu Etnológico. Diferentemente da mostra africana no prédio projetado por Walter Gropius, que há nove anos ainda causou sensação na sua intenção de apostar inteiramente no olhar estético, essa exposição é também um ato de esclarecimento no campo da etnologia. As quatro áreas são dedicadas à "história da arte africana", à "esculturas figurativas", à "performance", que mostra as máscaras tanto na sua individualidade quanto (nos vídeos) na práxis da sua utilização, bem como ao "design". A África dos séculos anteriores também valorizava a funcionalidade e o prestígio.

Nos anos 2003/2004, o Museu Etnológico apresentou a exposição no Brasil, na sua mostra mais exitosa de todos os tempos no exterior, conforme prova o número de visitantes, superior a um milhão. Assim temos a ligeira impressão de presenciar uma absolvição multicultural, quando a mostra pode ser vista em Berlim somente depois de um sucesso fora da Europa. Mas o curador Peter Junge afirma que os visitantes, muito pelo contrário, se vêem encorajados a "não esconderem o olhar europeu". E isso é sinônimo de questionar genericamente os pressupostos da recepção de obras de arte.

Não importa quão purista e simultaneamente sensual a mostra se apresenta na escrita pessoal de Marcello Dantas, um brasileiro especializado em arquitetura de exposições; decididamente, ela procura pôr em cheque as idéias de uma "arte", "religião" e "grande civilização", bem como o inventário de conceitos etnológicos, constitutivos da cultura dos visitantes europeus: "Tudo o que veio ao museu e tinha duas pernas era um fetiche", afirma Junge. Ele prefere falar de "figuras de força", que devem ser correlacionadas tanto à área da medicina tradicional quanto a sua execução se subordina à vontade criativa do artista individual.

Em parte as figuras servem simplesmente à legitimação da dominação. Mas porque foram feitos, para citar um exemplo, rostos com traços individuais durante séculos a fio, conforme mostra a cabeça feminina da Nigéria (sécs. XII a XV), até que subitamente as formas abstratas entraram em cena - essas formas, nas quais o Expressionismo acreditava reconhecer a dimensão originária e nas quais o visitante atual reconhece novamente a presença da simplicidade nobre e da grandeza silenciosa*)?

Em Berlim-Dahlem nenhum dos especialistas se comporta como se já tivesse encontrado as respostas a essas perguntas. Mas Viola König, a diretora do museu, fala de uma "mudança de paradigmas" no intercâmbio internacional, assim também com Paris e Londres. E Berlim se apresenta desde já como lugar perfeito para tal observação e reflexão: concebida como pendant da exposição "Die Brücke e Berlim" na Nova Galeria Nacional, mas também dialogando com a arte egípcia, que em Dahlem também é compreendida como "arte da África", essa mostra possibilita perspectivas inteiramente novas. Com isso o museu de Dahlem aponta na direção correta, pois se for possível transportar essa elegância intelectual na mudança da coleção para a antiga área do castelo, como parte do planejado "Fórum Humboldt", a coleção poderia ser não apenas um adorno, mas também uma chave para entrar no castelo: um espaço de memória universalmente preservador, mas sempre também dinamizador da cultura mundial.

Museu Etnológico, Lansstr. Berlin-Dahlem. Preço do catálogo: 24,90 EUR.

Tagespiegel
28 de agosto de 2005
Der Tagesspiegel - Cultura
As irmãs de Nefertiti
A África se apresenta sob novo brilho: o Museu Etnológico de Berlin-Dahlem revela os seus tesouros artísticos




Christina Tilmann

Eis uma revolução palaciana nos museus do bairro berlinense de Dahlem - e ao mesmo tempo um formulário impresso para uma candidatura futura no castelo da cidade, cuja reconstrução está prevista. A Seção Africana do Museu Etnológico apresenta seu acervo sob nova forma, e de repente a categoria internacional dos acervos berlinenses, que Peter-Klaus Schuster, o "general" dos museus berlinenses, tanto aprecia invocar, é levada a sério. É verdade que Nefertiti, estrela inconteste dos museus berlinenses, é rodeada pelas massas de visitantes na Ilha dos Museus. Mas as suas irmãs africanas menos conhecidas em Dahlem podem concorrer perfeitamente, tanto no quesito importância quanto no quesito qualidade.

Tomemos apenas a cabeça da mãe de um rei (iyoba) de Benin: ela usa uma coroa de pérolas de coral, que alonga a cabeça para trás como o busto de Nefertiti. Acresce um perfil suave, os olhos ensombreados por pálpebras pesadas, um sorriso misterioso nos lábios. Ou a "Cabeça humana" da Nigéria: o rosto forma um oval perfeito, os olhos estão ligeiramente puxados, os lábios ligeiramente levantados para cima, sensuais. Apesar de todos os traços individuais, trata-se de uma imagem ideal. Citemos como terceiro exemplo uma máscara da Libéria: a linha dos olhos e o queixo formam um triângulo perfeito, encimado pelo semicírculo da testa. As sobrancelhas, as pálpebras, a ponta do nariz e a boca são traços horizontais no rosto, resultando num jogo de formas geométricas muito ao gosto de um Alexei Javlensky.

As peças mencionadas pertencem ao que a arte retratística tem de mais fino. E a arquitetura da exposição ainda enfatiza essa qualidade. As salas escurecidas são dominadas por uma luz crepuscular aveludada e suave. Nela aparecem pedestais de plexiglass de luminosidade branca e leitosa e servem de base às peças selecionadas, destacadas por lâmpadas de irradiação direcionada. Já na entrada, o espaço assim dimensionado produz numa impressão avassaladora: isoladas na sua preciosidade, as obras-primas luzem na direção do visitante, como a casa forte que guarda um tesouro, como um espaço de meditação concentrada. Mas Peter Junge, o diretor da Seção Africana, afirma que não pretende se envolver com o coração escuro da África. Afirma também estar longe de pensar em rituais de invocação mágica.

A escuridão deve fomentar sobretudo a concentração - e direcionar a atenção aos objetos. O fato da Seção Africana, composta por 75000 peças, não conter apenas material de pesquisa etnológica, mas sobretudo arte de grande quilate, resume o credo de Peter Junge. Muito além de correlações cronológicas ou geográficas, ele apresenta os seus objetos selecionados unicamente de acordo com critérios estéticos, traça uma linha do Naturalismo à abstração, passando pelo Expressionismo, e não obstante nunca apaga a consciência da contemporaneidade do não-coetâneo*). Áreas temáticas como "escultura figurativa", "arte e poder", "retratos", "performance" e "design" estruturam as salas. Objetos de uso, como encostos para a nuca, copos, instrumentos musicais ou máscaras também são tratados como obras de arte. Na opinião de Junge a separação entre arte e artesanato inexiste na África: freqüentemente o mesmo escultor trabalha nas duas áreas.

No contexto dos acervos etnográficos, uma mostra como esta é inequivocamente uma revolução. Justamente em Berlim, em Dahlem, a apresentação dos acervos segundo critérios etnológicos se manteve por muito tempo - e freqüentemente entrou no passado em conflito com as seções vizinhas como o Museu de Arte Oriental, que desde sempre consideraram seus acervos como arte autônoma. Mas mesmo em escala internacional ainda estamos longe de um estado, no qual a arte africana seria percebida e tratada com toda a naturalidade como arte.

Em Berlim isso mudou, desde que Viola König assumiu a direção dos Museus de Dahlem. Os diretores das diferentes seções já estão elaborando agora uma concepção conjunta, com vistas à apresentação futura dos museus no castelo. E mesmo as coleções individuais de Dahlem adotaram, uma depois da outra e já há muito tempo, as novas formas de apresentação: entrementes, os Museus de Arte Indiana e Arte Oriental e a Seção Brasileira do Museu Etnológico dispõem de salas renovadas.

Além disso, a Seção Africana pôde contar com um acaso feliz, um pedido do Brasil para mostrar os tesouros de Berlim em uma grande exposição. Dois terços da população brasileira têm suas raízes na África. Assim a oferta de Berlim veio a calhar. E ela resultou num sucesso avassalador, para surpresa dos berlinenses: mais de um milhão de visitantes viu a exposição nas suas três estações no Rio de Janeiro, em Brasília e São Paulo. Diante da apresentação impressionante no Rio de Janeiro no Centro Cultural Banco do Brasil, Peter-Klaus Schuster declarou logo que preferiria assumir sem alterações a arquitetura de Marcello Dantas na mostra em Berlim: "Só precisamos emprestar os nossos objetos para ver como desejaríamos que eles fossem apresentados em Dahlem."

Resulta disso a situação paradoxal de que uma mostra especial por tempo limitado, apresentada no Brasil, transforma-se repentinamente em exposição permanente em Berlim, graças à falta de recursos próprios. Isso se deve à situação de necessidade dos museus berlinenses: a segurança no planejamento e, mais genericamente, um orçamento digno de menção para a realização de exposições não estão no horizonte para os museus de Dahlem. Mas até que ocorra a tão-esperada mudança para a praça do castelo (agora novamente mais provável depois dos acontecimentos mais recentes) podem passar anos e mesmo décadas. Os museus de Dahlem carecem de um planejamento para o seu desenvolvimento no longo prazo, embora devam apresentar a sua concepção no Fórum Humboldt até o fim do ano em curso, conforme se exige atualmente.

Peter Junge afirma que a exposição atual deverá ser mostrada durante cinco anos. A partir de dezembro ela será ampliada por salas adicionais para os preciosos bronzes de Benin e o tema do fetichismo. A época das exposições permanentes parece ter chegado ao fim, sendo substituída por formas mais flexíveis de apresentação, que reagem às novas demandas. Mesmo nos projetos para a praça do castelo Klaus-Dieter Lehmann, Presidente da Fundação Patrimônio Cultural da Prússia, aposta menos em exposições permanentes e mais em apresentações regularmente mutantes. Mas talvez o olhar de Nefertiti atravesse um dia o Lustgarten e incida diretamente no rosto da mãe do rei de Benin.

Arte da África. Museu Etnológico de Dahlem, Lansstr. 8. Catálogo publicado pela editora DuMont. 200 páginas, 169 ilustrações. Preço: 24,90 EUR.

Focus
REVISTA FOCUS
Out of Africa




Uma mostra*) ultramarina trouxe a luz: depois da apresentação extremamente exitosa das suas obras-primas africanas no Brasil, o Museu Etnológico de Berlim assume agora a encenação premiada como nova exposição permanente (a partir de 27 de agosto).
O design refinado do brasileiro Marcello Dantas literalmente joga luz nova sobre os objetos expostos em pedestais iluminados e mesas com superfícies em forma de espelho. "Enfatizamos a qualidade estética e mostramos que a arte da África é parte importante da cultura mundial", explica o curador Peter Junge (Catálogo publicado pela editora DuMont).


Cabeça comemorativa da mãe de um rei. Benin, séc. XVI
Máscara de búfalo dos Camarões, séc. XIX - objeto usado em rituais funerários
Fotografias: J. Liepe, E. Hesmerg, ambas do Museu Etnológico

 


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